sexta-feira, 2 de novembro de 2012

A passagem de um homem extraordinariamente simples

por Enildes Corrêa - omsaraas@terra.com.br                                                                                                                        

A vida e a morte são duas amigas inseparáveis.

O espírito, depois que parte, não volta para trazer nada para você. Por isso, temos que dar benefício para as pessoas enquanto estamos vivos. Dar paz, luz, amor, harmonia. Na vida, não existe nada além disso: paz e harmonia. Se você está em paz, você só quer viver tranquilo. Se você ganha bastante dinheiro, nem sabe com que gastar, o que fazer com tanto dinheiro. Às vezes, até arruma jeito de se destruir.
Hélio Corrêa da Costa

Essas são palavras de um homem simples, que viveu por inteiro os momentos de alegria, de celebração, de dor e de tristeza. Um homem de fé e de coragem.  Certa vez, indagado sobre sua reconhecida coragem, respondeu:
— Eu não tenho coragem. Tenho, sim, confiança em Deus. Eu sou um homem confiante em Deus e sei que sou protegido por Ele de nascença. Eu tenho uma proteção divina. Sou de Deus e ninguém me toma. 

Confiava totalmente em Deus e em si mesmo também. Adquiriu um supremo entendimento sobre a vida, o que lhe abriu as portas da paz e da harmonia interior.  Viveu de bem consigo e com as diversas expressões da Criação.

Trabalhou com afinco, dedicação e honestidade. Não ficou devendo nada para ninguém, acredito que tanto na terra como no céu. O trabalho no campo e na pecuária tornou-se uma fonte de satisfação. Colocou seu Ser em cada ação que realizou, das mais simples às mais complexas, o que resultou no toque do cuidado e do amor em tudo que fez. Valorizou cada dia que viveu, do amanhecer ao anoitecer.

Partiu aos 79 anos de idade, em paz, purificado e unificado, abençoado pela Existência.  Deixou como herança mais valiosa seu divino modo de viver – simples e puro. Talvez, por ser tão simples, teve espaço para a verdade,  a consciência, o amor e a paz. Um dos grandes herois anônimos da vida que conheci. O último dia de sua existência no corpo físico, coincidentemente, culminou com a celebração final dos festejos do seu santo de devoção – São Benedito.

À noite, no quintal da sua casa, inesperadamente, uma linda e reveladora visão – uma explosão de luzes e de cores no céu.  Depois, apenas a fumaça dos fogos que foi desaparecendo no espaço e um pressentimento no coração desta sua filha: havia chegado a hora da partida do seu amado pai e guia espiritual: o momento de a gota retornar ao oceano. A continuidade da vida em outra expressão, agora na não-forma, dissolvida no Todo. No céu brilhante e colorido pelos fogos de artifício em homenagem a São Benedito, um sinal de que o seu fiel devoto, Hélio Corrêa da Costa, passou com louvor e grandeza nos testes que a Existência lhe deu.

Na manhã de segunda-feira, 5 de julho, aconteceu a sua partida suave e mansa, em total relaxamento, no aconchego do lar e da sua família, junto, especialmente, da mulher amada. O corpo repousa à sombra frondosa de um cumbaru, embalado pelo sopro de  uma brisa suave e fresca e pela canção dos pássaros que pousam à procura de um abrigo acolhedor. 

Na memória, as suas boas palavras, o seu semblante pacífico, os seus olhos brilhantes e inocentes, os seus sorrisos e as bênçãos que não deixou de dar, mesmo com o corpo em dor e em agonia. O corpo sofreu; a alma, porém, não pereceu e permaneceu na paz eterna. 

Felizardos os que por ele foram abençoados, pois as bênçãos de um Ser puro e unificado dão forte proteção espiritual e valem mais do que mil quilos de ouro na vida de alguém. Bênçãos que não se limitaram apenas à sua amada e venerada companheira, aos seus seis filhos, netos e bisnetos, mas se estenderam aos demais parentes, aos seus bons e leais amigos e a todos aqueles que apareceram diante dele movidos pelo sentimento de amizade e fraternidade. 

Neste momento, recordo-me destas palavras de Kiran Kanakia: “Quanto tempo você vive não está em suas mãos, mas quão profundamente você vive, sim.''.


15/07/2004

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