domingo, 11 de agosto de 2013

Luzes das folhas de um coqueiro

por Enildes Corrêa 
"Não imponha condições à vida.  Impor condições à vida é feio, violento, estúpido.  Permaneça incondicionalmente aberto. Seguir a vida é ser religioso."      
 Osho                                                                            
Quando sinto o toque e a carícia do vento fresco na minha face, comungo com  Fernando Pessoa nesta sua  expressão:
[...] "Outras vezes ouço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido."
O vento faz as folhas do coqueiro que vejo à minha frente balançarem para lá e para cá, numa cadência tão elegante, tão feminina, como se estivessem desfilando pelas passarelas do espaço, ondulantes e sedutoras, querendo ao bem-amado encontrar e encantar. Outras vezes, dão-me a impressão de que elas penteiam o ar.

Tenho estado a observá-las, todos os dias,  diante da minha janela. Quando o vento muda seus sopros, de suaves e gentis para fortes e tempestuosos, elas se deixam embalar da mesma forma, apenas mudam a velocidade e a intensidade do balanço, porém sem perderem o compasso, qual um casal de bailarinos ajustados e sintonizados com a música, entre si e com seus próprios corpos.  As folhas se entrelaçam e se apoiam reciprocamente. E aí, parece que formam uma comunidade unida e solidária, na qual seus membros ajudam uns aos outros a atravessarem um momento de perigo que ameaça a sobrevivência de todos.

Tamanha entrega ao vento – seja qual for o tipo de sopro que as balança  –  faz-me sentir, de vez em quando, tão pequena diante delas, que despertam em mim uma  ponta de inveja dessa flexibilidade, que lhes dá a capacidade de dançarem ao som do vento com tamanha destreza e beleza. Nunca oferecem resistência, nem ao movimento, nem às paradas. A elas, parece muito fácil aceitar o movimento das mudanças, diferentemente de nós, humanos...

Ao vento forte, suas folhas se dobram.
Ao vento leve, garbosas se revelam.
E quando o vento para de soprar, não reclamam.
Tão majestosas quanto antes, permanecem quietas e silenciosas, sem nenhuma tensão, ansiedade ou angústia.

Reflito o quanto tenho a aprender com as folhas do coqueiro que vejo à minha frente daqui da minha janela. A qualidade que nelas admiro reporta-me ao meu pai. Ele também se curvou para a vida, como as folhas de um coqueiro. E é dele, um homem simples do campo, que saíram estas palavras, as quais já ouvi de grandes mestres espirituais, naturalmente, em outra linguagem, porém com  o  mesmo sentido: “Eu sou um badalo perdido dentro de um polaco. A pessoa é quem escolhe para onde ele vai. Você toca de um lado e, de outro, ele faz a ‘zoeira’. Parou, ele para e fica no silêncio”.

É a você, meu pai, que dedico este texto.
Você, que deu aos seus filhos a mais valiosa das heranças, a da Consciência, transmitida através da sua presença pacífica e amorosa, da sua coragem e honestidade, da sua plena confiança em Deus, das suas palavras de sabedoria, fruto da sua própria experiência e entendimento, da sua totalidade em tudo que faz, do seu exemplo de vida extraordinariamente comum. E, é claro, também da herança genética.

Você, um heroi anônimo, sem medalhas, que enfrentou com aceitação e compreensão tanto os ventos suaves da vida quanto os hostis, sem apego às alegrias nem rejeição às dores.  

Você, que chegou nessa total entrega à Vida, com o que Ela lhe deu de mais doce e também de mais amargo, o que revelou em você a natureza das folhas do coqueiro, que não impõem suas escolhas ao vento da Existência.   

Talvez seja por tudo isso, pai, que hoje, a Paz do Pai sopra através de você.

27/02/2002

ENILDES CORRÊA é Administradora e Terapeuta Corporal. Autora do livro Vida em Palavras. 
E-mail: omsaraas@terra.com.br

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