sexta-feira, 17 de maio de 2013

Encontro com a Vida - parte I


Enildes Corrêa - omsaraas@terra.com.br                                              

Você deveria transmitir sua alegria, seu silêncio e seu riso a qualquer um com quem tenha contato. Você não pode dar um presente melhor a seus amigos, a seus conhecidos, a seus amados, às suas crianças. 
Osho  


Este texto nasce de uma forte, difícil e intensa vivência que tive ao acompanhar um amigo que veio a falecer, inesperadamente, há algum tempo, que se tornou uma das maiores escolas da vida pelas quais já passei. 

Constatei e vivenciei estas palavras dos sábios: “A vida é curta para ser pequena”. Acordei para o fato de que ficamos fora dela por coisas tão banais, pequenas e insignificantes; apegos a tantas coisas supérfluas, que servem simplesmente de estorvos e impedimentos para vivermos com alegria, bem como para uma partida silenciosa e em paz.

A única coisa que fica com alguém ao morrer é o conhecimento experiencial de si mesmo, que abre espaço para a compreensão de si, do outro e da vida como um todo. O entendimento é eterno. Esse fica. Nada, nem ninguém, o arranca de nós. É o que vai ajudar na hora do grande parto da forma para a não-forma: a morte.

Ao me dispor a dar o meu apoio incondicional àquele amigo que não tinha nenhuma pessoa de laços sanguíneos ao seu lado e  a quem, fiquei sabendo através do diagnóstico médico  restava pouquíssimo tempo de vida, vi o imenso e sagrado valor dos pequenos gestos de cuidado, amizade e humanidade, independentemente de quaisquer ligações familiares.

Entretanto, confesso que acompanhá-lo naqueles momentos cruciais não foi uma tarefa  fácil. A princípio, senti o peso dessa responsabilidade nos meus ombros. Depois, tranquilizei-me ao recordar das palavras de Kiran Kanakia, durante satsang na Índia: “Quando confiamos na Vida, Ela toma conta”. “Quando você coopera com a Vida, a Vida coopera com você”. “Diga sim à Vida, aceitando-A como Ela é”.

Vi a verdade dessas palavras aparecer na forma de verdadeiros milagres naquele quarto de hospital, lado a lado com cada dificuldade enfrentada, como também destas outras:  “Amor é o remédio”. Vivenciei que o amor é a força mais poderosa do Universo,  neutraliza e vence qualquer tipo de reação, por mais intensa e danosa que seja.

Procurava transmitir ao meu amigo um afeto fraterno, através do meu olhar, do meu toque, da minha presença. Segurar suas mãos nos momentos em que ele sentia medo e sofria do mal-estar dos efeitos colaterais da forte medicação a que estava sendo submetido, tocar sua testa, seus pés ou outras partes do corpo onde eu percebia que precisava de mais vitalidade acalmavam seu sistema nervoso, deixando-o mais tranquilo, lúcido e consciente.

Seu corpo respondia de forma surpreendente ao toque que recebia das mãos, carregadas da mensagem de aceitação e acolhida da sua pessoa do jeito que era, com seu lado positivo, fácil de lidar e com seu lado reativo e mais difícil de aceitar. Essa qualidade, impressa no toque e no olhar, tem uma força de vida que às vezes nem mesmo os melhores medicamentos conseguem proporcionar.

Uma grande integração na minha profissão de terapeuta corporal se deu naquele ambiente de hospital. Foi uma das mais valiosas aulas que a Existência me deu sobre a importância, a profundidade e a amplitude de um simples toque humano. 

O toque que traz uma presença amiga, permitindo a alguém se sentir acompanhado e sair do estado de solidão e desamparo. O toque que vivifica a força interna, que nos faz sentir que nem tudo está perdido: é possível confiar e esperar pelo melhor, seja lá como for e onde for. O toque que transforma ansiedade, medo e angústia em tranquilidade e confiança. O toque que ajuda a reorganizar o caos emocional e possibilita-nos ver com mais clareza e caminhar com mais segurança. O toque que nos ajuda a abrirmos o coração e a comungarmos uns com os outros. 

Desejei, ardentemente, que todos os contatos entre os seres humanos, em qualquer âmbito, fossem permeados por essa qualidade do vivo, da aceitação, da acolhida e do respeito recíproco de uns pelos outros. Oxalá todos ao nascer pudessem ser recebidos neste mundo por uma infinidade de mãos amigas! E que, ao partir, levassem consigo a lembrança e o calor de um adeus dado nem que seja por uma única mão amiga.

Infelizmente, não é essa a realidade, principalmente a dos hospitais. Vi consternada vários médicos jovens, ainda em início de carreira, gabando-se de sua indiferença diante da morte. Ao observar tais atitudes, refleti sobre que tipo de formação as escolas de Medicina do Ocidente oferecem aos seus alunos. 

Se a morte for banalizada, que dirá o cuidado com a vida! Vida esta que os “humanos” estão quase conseguindo dizimar. E, diante da insensibilidade e indiferença de muitos, quantos partem sem sequer uma pessoa do seu lado para dizer: “Vá em paz, que Deus o acompanhe”. E quantos nascem sem alguém que os bendiga e diga: “Seja bem-vindo, viva em paz, seja feliz e que Deus o abençoe por toda a sua existência!”.

18/02/2002

BENEDITA ENILDES CORRÊA é Consultora  na área de Qualidade de Vida. Terapeuta Corporal Ayurveda e professora de Yoga. Ministra palestras e seminários vivenciais a organizações governamentais e privadas. Autora do livro "Vida em Palavras". 
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