segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Amor é o Remédio

por Enildes Corrêa - omsaraas@terra.com.br                                            
"Normalmente, queremos usar as nossas faculdades mentais na direção de ficarmos livres do problema, ao invés de procurarmos entender a causa do problema. Entender a causa leva a encontrar a solução correta do problema. Sem entender a causa, o remédio não se torna remédio, não faz o efeito." Kiran Kanakia 
"Nós não ensinamos os filhos a respeitarem a vida; nós os ensinamos a respeitarem as coisas materiais. Nós não damos vida, damos coisas materiais. Na Índia, procuramos dar às crianças contato com a vida." Dr. Mukund Bhole 
São atemorizantes as estatísticas que revelam o uso crescente de álcool e outras drogas entre a população jovem do nosso país. Aderir ao uso dessas substâncias parece que está se tornando um dos rituais de passagem para a adolescência dos tempos modernos, infelizmente. 

Estamos diante de um processo que está devorando a vida, mas não me parece que as autoridades governamentais estejam se dando conta da extrema gravidade dessa situação, caso contrário, estaríamos tendo uma verdadeira revolução quanto à valorização da vida, principalmente na área da educação e da saúde pública. 

Vemos com angústia crescente as escolas se tornarem alvo dos traficantes. E, ao mesmo tempo, como foi abordado pela Drª Isolda Alves, em palestra proferida no seminário realizado pelo Conselho Estadual de Entorpecentes de Mato Grosso, grande parte das instituições escolares públicas e particulares mantém-se quase à margem desse processo, sem haver um reconhecimento do papel social fundamental que exercem nessa grave questão.

Os jovens das diferentes classes sociais iniciam-se no álcool e em outros tipos de drogas por motivos diversos. Os da classe mais privilegiada têm tudo fácil e ficam sem desafios e objetivos na vida. Neste caso, a facilidade financeira para satisfazer os desejos de consumo, inclusive da droga, aliada a uma educação sem imposição de limites claros e firmes, com mais ausência do que presença afetiva dos pais, abre espaço para tais experiências. 

Aos pobres, por sua vez, falta-lhes quase tudo. Esses jovens, que já nascem sem direito a quase nada, muitas vezes, nem mesmo à presença e ao amor dos seus pais, sentem sua sobrevivência ser ameaçada constantemente. Sem emprego, sem esperanças, abandonados pela família, pela sociedade e pelo governo, veem se descortinar diante de si um futuro nada agradável de se enfrentar. Desorientados, frustrados e rejeitados, enxergam nas drogas uma válvula de escape para os seus problemas. 

Apesar das diferenças entre os jovens das várias camadas sociais que entram nas drogas de uma forma mais intensa, geralmente há algo em comum entre eles: não conseguiram obter o amor de que necessitavam para se sentirem protegidos e fortalecidos para enfrentarem o mundo com confiança, seja na família, na escola ou na sociedade. Em algum nível lhes faltou o amor essencial que dá sustentação a uma vida saudável. Aqueles que se tornam dependentes químicos revelam alto grau de insegurança e frustração. 


Entretanto, a tendência dos pais, ao se depararem com um filho pego pelas drogas, é culpá-lo, cobrando dele, geralmente de forma agressiva, mudanças de comportamento imediatas. Nem sempre procuram analisar as situações que contribuíram para que o filho se tornasse uma presa fácil dos vícios. Muitos pais nem se questionam sobre o seu jeito de agir, se foram presentes ou ausentes na vida dos seus filhos, qual a qualidade do relacionamento familiar. 

Esses questionamentos são dolorosos, porém, necessários para que a verdade aflore. Quando enxergamos e aceitamos um problema, sem tentarmos fugir dele, sem mascará-lo ou reprimi-lo, ganhamos forças para enfrentá-lo e as verdadeiras causas que o originaram emergem por si só. Como consequência, as soluções aparecem e, no devido tempo, tudo se ajusta. É uma lei natural da vida. 

Na realidade, os jovens estão sendo vítimas de um contexto familiar e social desorganizado. Na nossa sociedade, cujo conceito de felicidade está baseado em algo externo, frequentemente no poder econômico e de consumo, há uma completa inversão de valores, responsável por inúmeros desajustes no convívio social. O ter tomou a frente de tudo e o ser gente ficou para trás. Os valores materiais preponderam sobre os morais, éticos e espirituais.

Sabemos que a melhor prevenção ocorre dentro da própria família. Pais amorosos e presentes no dia a dia de seus filhos são fator fundamental para que eles cresçam seguros e tranquilos emocionalmente, tendo, assim, mais chances de resistirem aos apelos (internos e externos) em relação ao uso das drogas. Uma pessoa, por mais pobre que seja, se tiver um referencial afetivo forte, ficará mais imune às doenças de origem psicológica. O amor é uma grande força protetora e fortalecedora para qualquer pessoa. 

Contudo, para sermos amigos dos nossos filhos precisamos, em primeiro lugar, nos relacionar conosco de modo amigo e pacífico. E isso só acontece se compreendemos e aceitamos a nossa individualidade. Se a relação que tivermos conosco for de inimizade, como poderemos ser amigos e amorosos com alguém? Ninguém dá o que não tem, nem mesmo para um filho que saiu do próprio ventre. 

Percorrer o caminho do autoconhecimento, sendo honestos e verdadeiros conosco, dá ensejo a que essas e outras questões íntimas sejam esclarecidas, possibilitando-nos construir relações de amizade e harmonia dentro e fora da família. Vale lembrar que momentos de crise são oportunidades ímpares para uma reconstrução da vida, sobretudo para aqueles que estão abertos e dispostos a buscarem a verdade dentro de si mesmos.

Namastê!

BENEDITA ENILDES DE CAMPOS CORRÊA é Administradora e Terapeuta Corporal Ayurveda.  Profª de Yoga.  Ministra seminários vivencias à organizações governamentais e privadas na área de Qualidade de Vida e Humanização da Convivência. Autora do livro Vida em Palavras – coletânea de crônicas. E-mail: omsaraas@terra.com.br

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