quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Uma Visão sobre a Índia

por Enildes Corrêa - omsaraas@terra.com.br  

A sede pelo aprofundamento espiritual e profissional me levou a viajar para a Índia, regularmente, desde 1992. Tive a oportunidade de conviver com aquele povo amigo e hospitaleiro, que recebe o visitante como um mensageiro de Deus. Sermos recebidos com esse sentimento profundo de boas-vindas nos provoca uma sensação de muito bem-estar. 

Tradição como essa, que contribui para criar um relacionamento harmônico entre as pessoas, deveria ser compreendida e espalhada pelo mundo todo. Aliás, acolher alguém com consideração e respeito é um gesto sagrado. Sinto saudades do convívio com pessoas que veem a nossa melhor parte. 

A Índia é um país em que os visitantes, comumente, vivenciam fortes emoções. Uns amam, outros rejeitam. Parece que não existe o meio-termo. Eu, assim como inúmeros amigos de várias nacionalidades que conheci, incluí-me entre os viajantes que se apaixonaram pela Índia e pela plenitude da sabedoria da filosofia oriental. 

Tudo vai depender do propósito da viagem dos seus visitantes. O campo de experiência que se abre àqueles que lá chegam é bastante diversificado, sobretudo se levarmos em consideração a história milenar indiana ligada à busca da interioridade e da espiritualidade. Uma busca que todo ser humano traz dentro de si, em maior ou menor grau de intensidade, consciente ou inconscientemente. Essa energia parece estar impregnada na atmosfera do país e influencia os acontecimentos que vivenciamos ao pisarmos aquela terra.   

O Ocidente tem uma visão materialista sobre a vida, enquanto o Oriente é mais espiritualista. A Índia dá mais importância à paz da mente, à harmonia e a como nos livrar das reações, desapegarmo-nos delas. O alicerce da filosofia indiana é a busca do equilíbrio para a vida. 

É um país fascinante, rico de mistérios e contrastes, berço de grandes Mestres espirituais iluminados do planeta em todos os tempos da nossa história. Detém uma rica herança espiritual, até os dias de hoje. Segundo algumas pesquisas, Jesus Cristo teria vivido lá por algum tempo. 


Na Índia, somos lembrados, constantemente, que o ser humano tem sua raiz divina. Uma lembrança que se dá desde a forma de cumprimento Namastê – no seu significado mais profundo, uma reverência ao Deus existente em cada pessoa – até os inúmeros pequenos e grandes templos religiosos nas cidades e no campo, as famosas escolas espirituais espalhadas em várias partes do país – os ashrams – e a presença de Seres que vivem em estado de consciência plena – os Despertos.

Algo que me chamava atenção nos templos hindus era a expressão das pessoas, inclusive a dos jovens: de olhos fechados, em oração e meditação. Impressionava-me a profundidade do silêncio que via refletida em suas faces. Desde cedo, os indianos aprendem a se interiorizar e a conhecer o silêncio que existe dentro de si mesmos. Em suas casas, há uma parte que é destinada ao altar religioso. Aliás, de acordo com a tradição desse povo, a casa em que moramos é um templo de Deus. Carl Gustav Jung, em Ego e Arquétipo, afirma: 
O homem necessita de uma vida simbólica... Mas não temos vida simbólica. Acaso vocês dispõem de um canto em algum lugar de suas casas onde realizam ritos, como acontece na Índia? Mesmo as casas mais simples daquele país têm pelo menos um canto fechado por uma cortina no qual os membros da família podem viver a vida simbólica, podem fazer seus novos votos ou medita. Nós não temos isso. Não temos tempo, nem lugar. Só a vida simbólica pode exprimir a necessidade do espírito – a necessidade diária do espírito, não se esqueçam! E como não dispõem disso, as pessoas jamais podem libertar-se desse moinho – dessa vida angustiante, esmagadora e banal...’. 
Diferente do que acontece no Ocidente, os idosos recebem um tratamento especial. São cumprimentados, inclusive, com a reverência dispensada a um mestre espiritual. São amparados e cuidados pela família. 

O povo indiano tem a beleza da simplicidade e acolhe bem os estrangeiros, porém não é aconselhável aos visitantes infringir os seus costumes. Não convém à mulher usar roupas curtas, justas, decotadas, por exemplo, pois poderá ser mal-interpretada. 

Por outro lado, o costume local oferece, à ocidental, a oportunidade de usar um saree (roupa tradicional feminina indiana com 5,5 metros de tecido) com os famosos, exóticos e belos ornamentos: colares, pulseiras, brincos (como são maravilhosos!), tornozeleiras e o bindi entre as sobrancelhas. É uma experiência que vale muito a pena! Nunca me senti tão bonita quanto na Índia, vestida com o traje nacional das mulheres, cuja beleza fica bastante ressaltada pela roupa incrivelmente feminina e com a combinação das cores lindas e vibrantes dos tecidos indianos. 

Sua culinária é também uma arte à parte. Como é rica e diversificada! São tantos sabores e aromas! Parece ter sido criada especialmente para ativar e despertar o nosso paladar e também o olfato, sentidos que trazem a mente para dentro do corpo. 

Por sua vez, o trânsito estimula a nossa audição, pois os motoristas buzinam quase que a todo instante e, à primeira vista, parece uma loucura total. Ao chegarmos, nos primeiros dias, o ruído das buzinas incomoda um pouco. Depois, nos acostumamos e dá até para relaxar. Vemos tudo junto nas ruas: automóveis luxuosos, rickshaws (triciclos motorizados que servem de táxi), motos, bicicletas, elefantes, vacas, camelos. 

Passados os primeiros sustos dentro dos veículos, quer sejam os rickshaws ou os modernos automóveis, percebe-se que há uma ordem dentro daquele caos aparente. Os motoristas, de forma geral, respeitam o tempo um do outro, independentemente do tipo de veículo, do tamanho e do status de cada um. 

Há muitos mendigos nas ruas, mas eles não nos agridem. São insistentes, porém totalmente pacíficos. Vi pedintes tão centrados, cujo olhar passava tranquilidade e confiança, ao invés de desespero e angústia. Confesso que, no início, ficava intrigada com certas expressões que via nos olhos de alguns deles, o que só passei a entender melhor em viagens posteriores. 

Ao observar certos fatos, constatei que nem sempre um mendigo é um miserável internamente. E, às vezes, uma pessoa rica financeiramente vive em estado de extrema pobreza emocional. Tomei consciência de que a miséria que habita o interior das pessoas é tão triste quanto a externa. Lamentavelmente, poucos a veem ou se dão conta da sua existência em si mesmos, o que impossibilita um processo de autoconhecimento e transformação. 

A Índia faz parte do BRIC (os gigantes emergentes Brasil, Rússia, Índia e China) e, a partir de 1991, a sua economia teve um grande arranque. Sua taxa de crescimento econômico é superior a 7% ao ano. Contudo, em algumas partes das cidades indianas, a pobreza ainda se apresenta de forma tão desnuda, em gritante diferença e distância da opulência, como o padrão internacional de um hotel cinco estrelas ou os castelos dos antigos marajás, o que causa um forte impacto nas emoções dos visitantes, principalmente na chegada. Aqui no Brasil, a pobreza existente nos grandes centros urbanos fica mais “escondida” nos bairros da periferia. Lá, é mais visível, até em função do número de habitantes. 

Mas talvez esteja aí a primeira e forte chacoalhada na consciência que a Índia nos dá. Questionei-me intensamente sobre as causas da miséria no mundo, seja na Índia, na África, no Brasil, ou onde quer que ela se apresente. Como é possível os líderes políticos não se comoverem com as condições de vida crueis e desiguais para a espécie humana? E ao fazer tais perguntas nos deparamos com a miséria interna presente na mente do homem, pois não dá para dissociar uma coisa da outra. 

Se o egoísmo, a ganância e o apego ao poder fossem dissolvidos e brotassem no coração dos seres humanos o sentimento de amizade, a vontade de cooperar, o espírito de solidariedade e fraternidade, seguramente, não precisaríamos presenciar, em nenhum lugar, cenas desumanas que chocam os nossos olhos, as quais humilham e sacrificam os nossos semelhantes. Se uma nação não quisesse dominar e explorar a outra, ficaria bem mais fácil a abundância prevalecer para todos, independentemente de se viver neste ou naquele país. 

A Índia tornou-se um país rico, porém seu déficit social ainda é bastante sério. Mas, pelas ruas, podemos caminhar sem qualquer estresse com violência. Não nos sentimos inseguros nem preocupados com assaltos à mão armada ou qualquer outro tipo de agressão. 

Para nós, brasileiros, que estamos sendo obrigados a conviver com a assustadora escalada da violência como algo comum em nosso país, a vida banalizada de forma brutal, a ponto de seres humanos serem mortos por qualquer quantia miserável de dinheiro, ao ver um povo tão pacífico quanto os indianos, é impossível não comparar com a nossa situação, que leva a população a se sentir amedrontada, até dentro de suas próprias casas. 

A Índia nos surpreende com todos os seus opostos, com as luzes de todos os seus saberes, com todos os seus sons, cores, sabores e aromas. Tudo se mescla naquela terra misteriosa e cheia de magnetismo: o moderno e o antigo, a pobreza e a opulência, o progresso e o atraso, os mitos e a realidade, o científico e as crenças, a sabedoria e a ignorância, o caos e a ordem, como um rico mosaico de cores e formas diferentes, dentro de uma ordem que não conseguimos decifrar com uma visão comum. E, em torno do divino, os opostos se unem em profunda reverência. Ao finalizar este texto, escuto os sons das buzinas nas cidades indianas e um dos cânticos sagrados da Índia: 
Om Asato Maa Sad-gamaya
Tamaso Maa Jyotir Gamaya
Mrityor Maa Amritam Gamaya
Om Shantih Shantih Shantih[1]

[1] Tradução: “Senhor, conduz-me do irreal para o real, conduz--me da escuridão para a luz, conduz-me da morte para a imortalidade. Paz, Paz, Paz”. 

ENILDES CORRÊA é autora do livro Vida em Palavras
E-mail:  omsaraas@terra.com.br

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