quarta-feira, 11 de abril de 2012

Estação das Mangas em Cuiabá

por Enildes Corrêa - omsaraas@terra.com.br

Sou uma moradora do bairro Shangri-lá de Cuiabá e fui privilegiada com uma  mangueira em frente da minha casa, que nasceu por conta do movimento da própria  natureza. Um dia, simplesmente, as primeiras folhas apareceram e me dei conta de que uma semente de manga havia brotado no local. Dei-lhe as boas-vindas. Ela cresceu, transformou-se em uma bela e frondosa árvore, que dá uma sombra abençoada, servindo de pouso a muitos pássaros. Floresceu e hoje cumpre o destino de ofertar seus frutos à vida.

Aliás, no Shangri-lá, como em tantos outros locais de Cuiabá, podem-se avistar mangueiras nas várias direções que os nossos olhos conseguem alcançar. Agora, estão com a presença dos seus frutos, ainda verdes, em cachos pendurados, feito buquês de noiva, anunciando mais um tempo de fartura de mangas. Quando amadurecem, em dias de chuva e ventania, soltam-se das árvores, colorindo, com seus tons amarelos e alaranjados de fruto maduro, o asfalto das vias urbanas. Um  verdadeiro espetáculo de abundância, que faz jus à forma como a mangueira é chamada na Índia –  “A Árvore do Amor”. 

Se eu fosse artista plástica, pintaria essa cena do cotidiano cuiabano na estação das mangas – mangas aos borbotões nas ruas, nos quintais, na frente das casas.  Este ano, recebi a visita de alguns amigos estrangeiros que, ao passearem pela cidade, apreciaram o  verde,  em especial as nossas mangueiras. Surpreenderam-se com alguns fatos que lhes relatei sobre essa época na capital mato-grossense.

Contei-lhes que, em Cuiabá, os moradores das casas de quintais com mangueiras juntam as frutas maduras e as colocam em sacos nas calçadas para facilitar o seu transporte a qualquer passante que as queira levar. Nesta terra, ninguém nega uma manga a alguém, ao contrário, elas são ofertadas com alegria. Segundo dizem, o consumo de pão diminui nesse período, pois as pessoas substituem o pão pela manga.  Comer uma única fruta já nos sacia a fome.

Quando estas  árvores começam a florir  também é um belo espetáculo que vemos por aqui. Particularmente, gosto de vê-las todas floridas. É uma  visão tão bonita e reconfortante ver mangueira por mangueira em flor!  Despertam-me para o fato de que nós, seres humanos, também podemos crescer, florescer e dar o fruto da Consciência, da Verdade e do Amor à Existência. Nascemos  com esse potencial. É nossa natureza florescer, é nosso destino final dar à luz a  essa potencialidade interior, mais cedo ou mais tarde.  Ao observá-las, emerge em mim o sentimento de sintonia e unidade com toda a natureza.

Ontem à noite, deu um vento forte em Cuiabá. Pela manhã, ao sair de casa, encontro muitas frutas no chão da mangueira que nasceu à minha porta.  Deparo-me com as primeiras mangas maduras deste ano. Chegou o tempo de colher o fruto maduro. 

22/11/2005
  
ENILDES CORRÊA é Administradora e Terapeuta Corporal Ayurveda.  Profª. de Yoga. Ministra seminários vivenciais na área de Qualidade de Vida e Humanização da Convivência.  Autora do livro Vida em Palavras – coletânea de crônicas. E-mail:  omsaraas@terra.com.br

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