quinta-feira, 8 de março de 2012

A Mulher, o espelho e o reflexo

por Enildes Corrêa 

“A Beleza lhe dá o toque de alegria. Algo toca você naquela fonte. Algo leva você além da mente. Isso é a expressão da Existência.  Isso é beleza”.  Kiran Kanakia  
                          
O tempo passou, a idade avançou e é como se eu tivesse atravessado a fronteira do tempo, entre a juventude e a maturidade, quase sem me dar conta. Agora é mais fácil entender os idosos quando dizem que o tempo passa tão rápido.

Na idade da maturidade, a relação com a vida mudou. Com o espelho também. Agora, diante do espelho, percebo-me de forma diferente: uma expressão com a sua própria unicidade, a qual não rotulo mais de bonita ou feia, como antes. Aos poucos, vou me desapegando da imagem física. Afinal, nós não somos o corpo. Questiono-me acerca do mistério da alma contido nas camadas profundas do corpo. Quem é esse Ser em sua totalidade? Ser que o corpo cobre e testemunha tudo o que lhe acontece! Quem olha através dos meus olhos para o espelho? Quais as faces que permanecem desconhecidas dentro de mim e que ainda poderão ser reveladas?

Faço uma  retrospectiva e vejo meu corpo como um palco no  qual transcorreram  cenas de lutas com vitórias e derrotas, resistências e entregas, atos de bravura e fraqueza, encontros e desencontros,  risos e prantos, gritos e silêncios, amargores e êxtases. Cenas que não tiveram ensaios prévios, acontecimentos que me propiciaram vivências marcantes e muita gratidão por tudo que me remeteu para dentro de mim, levando-me a buscar o encontro comigo mesma, sem o qual é impossível o nosso encontro com o Todo.

Experiências vivenciadas neste corpo me foram desamarrando, libertando de ilusões, bloqueios e de muitos apegos, dando-me a impressão de ter vivido mais de uma encarnação num único corpo. Quantas transformações! Em contraste com a experiência adquirida, dentro há uma jovialidade que transcende tempo e forma. É como se houvesse em  mim várias mulheres de idades diferentes – de criança a anciã. E uma disposição para confiar na vida que o imergir em mim mesma, através do tempo, fez acontecer.   

A dedicação ao autoconhecimento me abriu um espaço de profunda intiminade e compreensão do mundo interno, o que me tem permitido lidar com as mudanças físicas de um modo mais natural, apesar, é claro, de o espelho testemunhar alguns conflitos e contradições, naturais a toda fase de transição, em especial, para a mulher. Quando entramos no nosso  interior, entendemos melhor a relação entre corpo, mente e energia. Não nos tornamos presas fáceis dos desejos e das loucas demandas da mente, bem como das exigências desta sociedade de consumo que cultua a imagem do corpo de forma exacerbada, tornando-se uma insanidade.

Nesta nova experiência com o corpo, o espelho e o reflexo, chegam-me as palavras do querido amigo, Dr. Paraná de Oliveira, o qual deixou o corpo aos 89 anos: 
Ter o senso de beleza mais desenvolvido é uma qualidade excepcional. Não é qualquer um que a tem. A beleza física não tem muito mérito, é transitória, passageira.
A beleza interior é permanente, porém, mais difícil de encontrar e atrai a simpatia das pessoas. Ela é obra pessoal do titular. O titular a constrói.
E para aqueles que gozam da beleza interior, o corpo pode não ser tão bonito, mas sempre se descobre um ângulo que o favoreça, mesmo com a idade. É como o fotógrafo que concebe o ângulo mais bonito da mulher para fotografá-la e termina descobrindo aquele que a deixa mais bela.
Durante uma reunião com Kiran Kanakia na Índia, alguém lhe perguntou como aprender a permanecer em harmonia com o corpo quando este vai envelhecendo. Eis parte de sua mensagem:
Envelhecer é um fenômeno biológico natural ao corpo. Compreenda o corpo, as suas demandas, o que e o quanto ele necessita neste momento. Ouça-o. Esta compreensão da linguagem e da situação do corpo o mantém em harmonia. Uma vez que você está em harmonia com o corpo, há uma beleza natural nele com a idade também. Não há nada errado em aceitar que o corpo está ficando velho. Aceite isso. Uma vez que você aceita, não vai forçar o corpo a se tornar jovem. Há uma aceitação harmoniosa do envelhecimento.
Não há beleza somente nas pessoas jovens. Há beleza nas pessoas idosas também. Beleza é a harmonia que está no corpo. Não é a forma do nariz, dos olhos, do rosto, do corpo. Beleza não está na idade, está na harmonia. Harmonia é beleza. Uma vez que você vai entrando em harmonia com a vida, há uma beleza interior que se ressalta. Se você permanece em harmonia, há uma beleza natural e fica livre de todo esse medo de envelhecer.
À medida que o tempo passa, dou-me conta de que a melhor fase é aquela em que nos inserimos na vida com totalidade e consciência. Desse modo, permanecemos no aqui e agora, onde aspiramos o perfume da sagrada comunhão com a Existência. Vivendo a idade da maturidade, constato haver certos frutos que, normalmente, só podem ser colhidos a partir desta época. E descubro que, em qualquer idade, é possível revelar o nosso melhor ângulo, mesmo diante do espelho.

Dou graças à Vida por tomar consciência de que, dentro do corpo, há aquela parte que não envelhece, que nunca morre e não se apega nem se identifica com nenhum reflexo. Agradeço a Deus a paz, a harmonia, a beleza e por  que não?  O Mistério de cada dia.    

 ENILDES CORRÊA é Administradora e Terapeuta Corporal Ayurveda. Autora do livro Vida em Palavras – coletânea de crônicas. Ministra palestras e seminários vivenciais a organizações governamentais e privadas na área de Qualidade de Vida e Humanização da Convivência.  

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