sábado, 24 de março de 2012

Encontro com Manoel de Barros

por Enildes Corrêa


desenho: Manoel de Barros
"Sou livre para o silêncio das formas e das cores.

Só quem está em estado de palavra pode enxergar as coisas sem feitio. 

A poesia não existe para comunicar, mas para comungar.
A palavra é o nascedouro que acaba compondo a gente. 

A palavra amor anda vazia. Não tem gente dentro dela
Melhor ser as coisas do que entendê-las.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro. Para mim poderoso é aquele que descobre as Insignificâncias (do mundo e as nossas)."     
                                                        Manoel de Barros                                                                                                                                      
Assisti mais uma ver ao excelente documentário “Só dez por cento é mentira - a desbiografia oficial de Manoel de Barros”, do diretor Pedro Cezar. Foi inevitável reavivar em mim o desejo antigo de conhecer pessoalmente o poeta nascido à beira das águas do rio Cuiabá, reconhecido nacional e internacionalmente pela originalidade, artesania e mestria de sua obra literária. 


Que bênção seria se o anseio de chegar a esse fantástico mensageiro da poesia, que transformou em extraordinária arte escrita a simplicidade das coisas comuns, se tornasse realidade. E por que não? Resultasse em poesia - a poesia do encontro.

Quem sabe seria “abençoada a garças” nessa transmissão que acontece na presença e no silêncio de ambas as partes, na dimensão invisível do Ser, e  aprenderia, pelo menos um pouquinho, o idioleto manoelês, presente único da Vida a Manoel de Barros, nosso amado Poeta da palavra, que nos leva a deixar os pesados halteres do mundo de lado, nos instiga a desamarrar a nossa visão, deslimitá-la, e experienciar a liberdade de “transver” a expressão das formas e das palavras.

Se morasse em Campo Grande, iria tomar coragem de dirigir-me até sua casa e daria som ao mágico botão musicado que anuncia chegada de visitantes (era assim minha visão de campainha na infância). Então, esperaria ansiosa diante da porta e, se ela se abrisse e eu fosse convidada a entrar, caminharia feliz pela morada de Francisco de Assis dos nossos tempos. 

Seu olhar desperto, sua sensibilidade e simplicidade, suas palavras e a relação de intimidade e profundidade que tem com elas deixam-me de boca aberta, com vontade imensa de “voar fora da asa” e encontrar o poeta que se juntou e se tornou Um com a natureza da palavra e a Vida.

Manoel de Barros “monumentou” a infância humana. Sua obra que narra seus nascimentos literários e ”empoema o sentido das palavras”, desperta os nossos sentidos, abre portas de novas percepções e lança encantamento sobre seus leitores.  

Neste ano, vou ser avó pela segunda vez. É outro menino. Quando chegar o tempo de essa criança se interessar pelos contos de fada, espero poder contar-lhe que, um dia, esta avó (de 53 anos), tomada pela sede de “crescer pra passarinho”, foi visitar o Grande Poeta Manoel de Barros, que assim poetizou:
          
Quando as aves falam com as pedras e as rãs com as águas - é de poesia que estão falando.       

Por viver muitos anos dentro do mato.
Moda ave.
O menino pegou um olhar de pássaro – contraiu visão fontana.
Por forma que ele enxergava as coisas por igual.
Como os pássaros enxergam.

Que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem barômetros etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós.

Em estado de graça com mais um Anjo neto em meu colo de mãe e avó, embevecida com a inocência de seu olhar,  contarei a ele que Manoel Wenceslau Leite de Barros, o menino Nequinho que nasceu poeta, “tentara pegar na bunda do vento – mas o rabo do vento escorregava muito” - e não conseguira. Prosseguirei, fazendo-lhe esta pergunta: e você, meu presente de Deus, será que conseguirá segurar-se no rabo do vento?

E rezarei para que todas as crianças cresçam guardando em si a beleza da inocência manifestada na poesia de Manoel de Barros, que não se esqueçam da “pedra que toma banho de orvalho da manhã".

Em homenagem a todos os inocentes, em especial ao Poeta e ao recém-chegado viajante do Cosmos, amado desde a sua concepção, como deveriam ser todas as crianças que chegam à dimensão da forma, recitarei este trecho do livro Cecília Meireles - Obra em Prosa:

E se outro São Francisco se ajoelhar na gruta rústica, o Menino virá todo em luz aos seus braços, porque só o Santo Poeta entendia dessa irmandade geral do céu e da terra, e da graça de todos os despojamentos, e da alegria de não precisar ter, pela contemplação de todos os enganos, e da leveza da vida em expressão absoluta.

Arrisco a dizer que passarinho se fez humano no Imortal conterrâneo cuiabano, nasceu do “vazio da ponta do lápis” do Santo Poeta e cresceu pra Manoel de Barros.

Namaste

05/03/2012

BENEDITA ENILDES CORRÊA é aprendiz da vida poética.
e-mail:  omsaraas@terra.com.br 

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6 comentários:

  1. Parabéns, Enildes,
    por nos brindar com mais um belo artigo que revela o encontro entre duas almas cuiabanas plenas de poesia.
    Sua sempre amiga,
    Neuza

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  2. Quem é Poeta, não deixa de ser Poeta. Porque vive no que "empoema". Parabéns!
    Miriam Braga

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    Respostas
    1. FALAR DE MANOEL BARROS, DE POESIA, DO AMOR DE VÓ, DE FANTASIA, DA CHEGADA DE UM NOVO SER TÃO AMADO E ESPERADO NO VENTRE MATERNO É CANTAR A CANÇÃO DA VIDA É EMPOEMAR O UNIVERSO. QUE BOM QUE VC EXISTE AMIGA, DEIXA O UNIVERSO TÃO CHEIO DE PAZ NAMASTÊ
      NEIDE

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  3. Amiga Enildes, a conheço como uma excelente escritora, mas agora você está se revelando uma poetisa que até o Manoel de Barros vai ficar encantado. Minha amiga, você vai longe! Continue escrevendo essas maravilhas, pois enquanto lemos nos reportamos a um mundo que só a sua sensibilidade nos faz ver.
    Um grande beijo.
    Alrian Barros

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  4. Escutar o silêncio, ouvir o vento passar, correr atrás da bunda do vento. É mágico e insano. É coisa de poeta. Como deixar de amar o poeta. Como não amar quem ama a poesia.
    Que texto "saboroso"! Grande Manoel de Barros! Grande Enildes!

    Lúcia

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