domingo, 19 de fevereiro de 2012

Sabedoria de um Ancião Cuiabano

por Enildes Corrêa - omsaraas@terra.com.br                              
"Meu entendimento de sufi é uma pessoa que está absolutamente em estado de relaxamento. Quem está em harmonia e em sintonia com a vida é um sufi." Kiran Kanakia
Este artigo é voltado para o Sr. Hélio Corrêa da Costa, uma reverência desta sua filha que ama e respeita profundamente esse sábio ancião cuiabano. Reconheci sua sabedoria após 30 anos de convivência, consequência, principalmente, de uma longa caminhada em direção ao autoconhecimento, o que me permitiu receber a dádiva de ir e ver além das aparências.

Seo Hélio, como é conhecido, tem 78 anos, é um pequeno pecuarista que conhece cada animal que lhe pertence.  Ao nascer um bezerro, ele lhe dá um nome, do qual nunca se esquece. Ama a sua profissão de pecuarista e o trabalho transformou-se em ponte de transcendência espiritual. Sua relação com a terra e com os animais não é de exploração, mas de cuidado e amizade, o que os distingue visivelmente de outros da região. Aliás, a atenção e o cuidado estão presentes em tudo que faz, porém sem apego a nada. Tais qualidades no seu jeito de ser e de viver me reportam a alguns princípios do zen-budismo.  Vejo nele também as características de um sufi, pois sua vida tem a profundidade, a pureza e a beleza do simples.

Um sábio desconhecido e anônimo, menos para as poucas pessoas que têm olhos para enxergá-lo e ouvidos atentos para escutá-lo. Toda a compreensão espiritual que adquiriu não foi através de nenhum livro, mas da constante observação do movimento da própria vida. Não frequentou nenhum templo religioso, a não ser o da natureza, com que teve sempre contato permanente e estreito, desde o seu nascimento. Também não teve do seu lado nenhum sacerdote ou qualquer mestre espiritual. Junto de si, apenas a luz de sua alma que tem iluminado o seu caminho, passo a passo, tal qual um eremita.  

Existem milhares de santos anônimos espalhados pelos vários cantos do mundo.  Normalmente, passam despercebidos pela multidão e até mesmo pelas suas próprias famílias. Disse Jesus: “Não há profeta sem honra senão na sua terra, entre os seus parentes, e na sua casa” (Mc, 6,4). Quantos de nós convivemos com um deles, sem sequer nos darmos conta do estado de consciência que alcançaram... Muitas vezes são reconhecidos depois que morrem, mas aí, de que adianta?  Para eles, pelo menos, nada. Já se foram. É enquanto a flor está viva que ela pode compartilhar a fragrância que emana de si neste tempo e espaço, que não volta nem se repete jamais.

Eu ouço o Seo Hélio com muita atenção, querendo captar o sentido maior de sua fala, que transcende o que as palavras conseguem exprimir. Registrei, no papel e em meu coração, inúmeras das mensagens. Papai aprendeu a viver em paz consigo, com o outro, com os animais, com a natureza – dever que deveria ser o maior de todos para os seres humanos.

Um nobre e sagrado aprendizado que as universidades não são capazes de ensinar. Aliás, no nosso sistema de educação, não é dada a devida importância para a arte de viver em paz. Ao contrário, normalmente, quanto mais as pessoas estudam em nível meramente intelectual, deixam de lado o contato com as raízes vitais profundas do ser, assim, torna-se comum o adoecimento psicológico. Desaprendem e muitos até desprezam os caminhos e a linguagem do corpo, do mundo interior, passando a viver sem conexão com o estado de equilíbrio e felicidade, um estado que o Seo Hélio conhece muito bem, mesmo com o corpo em dor pela hérnia de disco que adquiriu em função do trabalho pesado no campo. Não se identificou com os problemas que o seu corpo apresentou com o passar dos anos e não reclama de nada. Fala que Deus não gosta de reclamação, que a reclamação ofende a vida.

Os olhos desse sábio e amado ancião cuiabano têm o brilho e a inocência que revelam a presença em si de um Ser purificado e unificado. Hoje, quando estou na sua presença, já não sou mais só sua filha, sou também sua aluna.  A maneira como ele  se expressa, reportam-me a um discurso do Mestre Osho: 
As palavras simples contêm mais verdade que as complexas; palavras complexas são criações de estudiosos tolos. As palavras simples são diretas, imediatas. Se você escutá-las em silêncio, nada poderá impedi-lo de compreendê-las – mas o silêncio é um pré-requisito. Se sua mente estiver cheia de pensamentos e você estiver escutando todo o lixo, então aquelas palavras simples se tornarão complexas quando chegarem a você e não terão mais o mesmo significado.
Entre uma conversa e outra, papai passa um pouco de seu entendimento, que provoca forte ressonância em minha alma:

Com o tempo, a gente fica como essa chuva, suave, e vai molhando tudo – caía então uma chuva constante e mansa. Dentro de mim eu não tenho mais rancor. Eu fiquei manso.
Você não tem mais sexo com a idade, mas você tem amor.
A vida sem amor é seca. O calor humano é divino.
A gente não se diminui nem se exagera.
Fazer uma coisa bem feita faz bem para a saúde.
O impossível acontece. O sofrimento é passageiro. Tem sofrimento que serve de remédio na vida da pessoa. O desespero vem da inconsciência. Na vida, precisamos ter calma. A tranquilidade vem do céu. Se você está tranquilo, tudo fica bem e você pode ver o ponto certo.
Você tem que ter satisfação de viver, pois, sem a satisfação de viver, não tem sentido viver.
A vida de harmonia é uma vida suave.
A vida equilibrada é boa. Você pode ser pobre, ter só arroz e feijão para comer, mas, se tem um equilíbrio, você tem uma satisfação na vida. A pessoa, sabendo viver, não tem destino ruim.

O destino constrói e destrói. Muitas vezes é destruído pela própria pessoa.
Toda profissão, quando você se orgulha, vai por água abaixo.
O político acha que toda a vida vai ganhar e não liga para quem é humilde. E, quando ele cai, cai pra não se aprumar mais. O político confia só no poder dele. Ele desconsidera o poder de Deus e não teme a Deus. 
A gente não se desfaz, não desfaz da vida nem dos que têm a vida.
Não se deixe ofender por uma ofensa. E, se você é mais forte que a pessoa que lhe ofendeu, mas que você ama, converse com ela e lhe dê conselhos.
O silêncio é um conselho especial. No silêncio, não há conflito. A verdade sempre está no meio do silêncio. E o silêncio é você sozinho. Sozinho, você evolui.
Eu me uni com o silêncio. Eu gosto de ver o ritmo da minha vida no silêncio eterno.
     Se eu não tiver rancor do meu inimigo ele não terá forças para ser meu             inimigo.            
O ódio é uma arma perigosa e nós não devemos ter essa arma. Deus não odeia ninguém.
Deus não castiga ninguém, mas, na mão de Deus, todo aquele que deve tem que pagar.
A morte é companheira da vida.
Eu rezo pedindo tudo de bom para os meus e para o mundo. Eu não peço só para os meus, senão não fica uma reza muito verdadeira.
Com fé em Deus, a gente vence tudo. Eu aceito tudo que Deus me dá. Com a proteção de Deus, eu levo minha vida até o fim. 
A única coisa que nós podemos fazer é aceitar a vida.

Seus ensinamentos são simples, todavia a dificuldade da maioria de todos nós é, justamente, chegar ao simples. A sociedade nos leva a desvalorizar e a esquecer essa qualidade dentro de nós. 

A divina compreensão que o Seo Hélio atingiu me contagia cada vez mais, além de reforçar e facilitar a prática dos ensinamentos recebidos do Mestre indiano, Kiran Kanakia, a quem também amorosamente reverencio. À medida que coloco em prática o entendimento desses Seres iluminados, passo a ter a minha própria experiência e comprovo a total veracidade de suas pequenas e grandes sagradas lições existenciais, sejam elas transmitidas por um sufi indiano, sejam por um sufi cuiabano.

Vou ter sempre comigo o espelho desse pai, um herói anônimo gigante, no qual eu posso me mirar sem nenhuma distorção, que aceitou a vida em sua totalidade como alguém que ama uma rosa e compreende a sua natureza, aceitando tanto a beleza e a maciez de suas pétalas como também a rudeza de seus espinhos. Conseguiu vencer a mais árdua e corajosa batalha que cada indivíduo um dia tem que travar: a conquista de si mesmo.   

13/04/2002

BENEDITA ENILDES CORRÊA – Administradora, terapeuta corporal Ayurveda, professora de Yoga. Ministra palestras e seminários vivenciais a organizações governamentais e privadas na área de Qualidade de Vida e Humanização do Atendimento ao Público. Autora do livro Vida em Palavras. 

2 comentários:

  1. .“ Sabedoria é a arte de provar e degustar a alegria, quando ela vem. Mas só dominam essa arte aqueles que têm a graça da simplicidade. Porque a alegria só mora nas coisas simples. (Concerto para corpo e alma)

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    1. Querida Lúcia, que sabedoria! Obrigada pela partilha,amiga.

      Grande abraço.

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