segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Meditação - Sintonia com a Vida

Enildes Corrêa 
"Meditação significa consciência, estar desperto para o momento. Permanecer consciente é meditação. Quando você está consciente, não há esforço. E essa consciência só vem quando você aceita a si mesmo. Estar consciente torna-se tão fácil quando você se aceita". Kiran Kanakia
"Meditar nada mais é do que voltar para casa e descansar um pouco lá dentro.  Não é o canto de um mantra, nem mesmo uma prece; é simplesmente voltar para casa e descansar um pouco. Osho                                                                                                                                                                                                               
A meditação tem despertado cada vez mais interesse no Ocidente, sendo, inclusive, objeto de estudos e  pesquisas científicas na área da saúde. Contudo, ainda há muita falta de informação e são grandes os mal-entendidos que cercam esse ensinamento tão antigo quanto a própria humanidade, enraizado e disseminado no Oriente.

Embora seja um tema difícil de ser explicado, uma vez que se trata fundamentalmente de uma experiência interna, subjetiva, proponho-me a abordá-lo a partir da minha própria vivência.

Meditação é conexão com a vida, interna e externa. Meditação é silêncio interior. E esse silêncio só se manifesta se houver aceitação e acolhimento do momento presente tal como é, dentro e fora de si. Sem essa condição, prevalecem os conflitos, as tensões, as divagações mentais e não o silêncio. A aceitação da natureza da vida com compreensão é transformadora, ajuda a descomplicar, a relaxar e a equilibrar o nosso viver, conectando-nos com o estado interior natural de harmonia e felicidade.

E fazer meditação é diferente de estado meditativo, o qual é a nossa natureza. Kiran Kanakia nos explica melhor:
  
“Meditação é o conceito mais incompreendido. As pessoas estão perguntando a partir de uma compreensão equivocada, ou mal-entendido: concebem a palavra meditação como uma técnica, como algo para fazer.

Fazer meditação como uma técnica é uma coisa e meditação, em sentido real, é outra.  São entendimentos diferentes. Quando usamos a palavra meditação, em sentido real, referimo-nos a um estado meditativo, que é o nosso estado natural, o qual não pode ser trazido através de nenhuma técnica, esforço ou qualquer coisa que se faça.  Ele já está lá, mas tem sido escondido ou suprimido por causa de algo, e esse algo é a mente.  

O estado de meditação é o estado de relaxamento. Ele o relaxa muito e lhe dá um silêncio interior profundo. E silêncio é a expressão desse estado. Assim, você está absolutamente naquele estado além da dor, além do prazer. Esse é o estado de bem-aventurança.

E o que é o estado de harmonia?  Harmonia é o fluxo do amor que a aceitação da vida traz.

Quando você começa a aceitar a vida do jeito que ela é, essa aceitação lhe traz de volta  a harmonia. E harmonia é o fluxo do amor.  Então, você não precisa de nenhum outro poder.”   

Os sábios dizem que, quando oramos, nós falamos com Deus. E, quando meditamos,  nos silenciamos para ouvir a voz de Deus. Assim, não se trata de refletir, de rezar ou entoar mantras. Meditar não é concentrar, pois não é ação mental. É atenção sem esforço, o que é diferente de concentração. Meditar também não é pensar ou visualizar algo e, sim, ir além dos pensamentos e imagens. Simplesmente estar presente, consciente e testemunhar o que acontece internamente, mantendo um desprendimento do que quer que se perceba: sensações corporais, pensamentos, imagens, desejos, emoções, humores, sentimentos. Nessa observação silenciosa, sem apegos e julgamentos de qualquer natureza, corpo e mente se acalmam, aquietam-se e a paz se manifesta em nossos corações. A confusão desaparece e a ordem interna se instala.

Outro aspecto que vale a pena esclarecer é que meditação não é somente sentar-se em postura de lótus, fechar os olhos e assim ficar por um determinado tempo, sem proposição de metas a serem alcançadas. Se um indivíduo colocar a totalidade do seu ser em qualquer tarefa do cotidiano, entrará em estado meditativo.  É uma consequência de estarmos inteiros, presentes, motivados e sem conflitos naquilo que fazemos.

Quando ia à fazenda do meu pai, costumava observá-lo executar os seus afazeres. Seu trabalho sempre primou pela qualidade.  Eu percebia que papai permanecia inteiramente presente em tudo que realizava, sem preferência entre as tarefas mais fáceis e as mais difíceis de serem executadas.  Na minha memória, a lembrança do doce de leite de qualidade ímpar que ele fazia. Enquanto mexia com a colher de pau o leite colocado num grande tacho de cobre, sua fisionomia quase não se alterava, transmitindo muito centramento. Dentro dele, com certeza, não havia divisão nem tampouco distração ou pensamentos sobrevoando em sua cabeça. Mantinha-se totalmente absorvido pela ação que executava, o que dava como resultado um doce de leite de sabor único, passando algo de extraordinário.     

Esse é um dos segredos para se atingir patamares de excelência em qualidade, seja na elaboração de produtos ou na prestação de serviços: gostar e estar presente, total naquilo que se faz. Nessas condições, o trabalho deixa de ser um fardo e pode transformar-se em  meditação que acontece naturalmente, sem esforço.  Dessa forma, a pessoa adquire mais e mais clareza mental, torna-se assertiva e também mais sensível, criativa, integrada ao seu entorno de maneira mais equilibrada e harmônica.

Porém, na loucura da pressa, na luta pela sobrevivência, do ter que fazer, envolvidas por um turbilhão de atividades, as pessoas se esquecem até da própria existência;  rígidas e identificadas com a tensão do fazer, permanecem num movimento automático e mecânico, tenso e inconsciente, que lhes tira o sabor de estarem  vivas. 

Por outro lado, a sabedoria, a criatividade e o amor manifestam-se como uma dádiva para as pessoas que adquiriram qualidade e totalidade de presença em tudo o que fazem, seja riscando um palito de fósforo, seja acendendo o fogo de uma grande fornalha.

Osho afirma:

Meditar significa sair dos desejos, sair dos pensamentos, sair da mente. Meditar significa relaxar no momento, no presente. Meditação é a única coisa do mundo que não é escapista, embora se pense que é a mais escapista que há.  As pessoas que condenam a meditação sempre a condenam argumentando que ela é escapista, que foge da vida.  Estão simplesmente dizendo absurdos; não compreendem o que estão dizendo. Meditar não é fugir da vida:  é fugir para a vida. Meditar é abrir os olhos, meditar é olhar.

ENILDES CORRÊA – Administradora e Terapeuta Corporal Ayurveda. Autora do livro Vida em Palavras. Ministra seminários e palestras vivenciais a organizações governamentais e privadas na área de Qualidade de Vida e Humanização da Convivência. 
  

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