sábado, 25 de fevereiro de 2012

Mangueiras Prenhes

por Enildes Corrêa - omsaraas@terra.com.br            
“Sente-se consigo mesmo na natureza e dialogue em comunhão com ela. Observe, por exemplo, o movimento do oceano, as diferentes expressões da natureza – as aves, as árvores. A observação acontecerá naturalmente. Será a sua própria sabedoria, melhor do que milhares de livros. Leia os livros da natureza. Uma sutil transformação começará a acontecer”. Kiran Kanakia

Estamos na época da floração das mangueiras e é um presente para os olhos vê-las florir. Em Cuiabá, elas estão presentes em quase todos os lugares, e saltam aos nossos olhos.

Contemplá-las, em especial neste período, agrada-me e revigora-me imensamente, ainda que em rápidos momentos dentro do carro, nas paradas obrigatórias de sinal vermelho ou pelo constante congestionamento do trânsito de nossa capital.

A bela e reconfortante visão das mangueiras em estado de florescimento, de suas folhas em movimento, brilhando e refletindo a luz do sol, cobertas pelas flores, como coroas sobre seu manto verde, oferece-me um antídoto contra a tristeza de testemunhar os crônicos descasos e descompromissos dos gestores públicos com esta terra-mãe e seu generoso povo, quer seja na estação da seca ou das chuvas...  

Ao observá-las, sintonizo com a intensa força criativa nelas manifestada por ocasião desta fase. É como se a energia da seiva vital dessas árvores fosse transmitida àqueles que as reverenciam através do ato de atenção e respeito ao seu estado de prenhez. Mangueiras prenhes de seus frutos, tais quais mulheres grávidas a anunciar a vinda de novos nascimentos através de suas formosas e proeminentes barrigas, em cumprimento à sagrada missão de continuação e renovação da vida.  

Essa contemplação desperta-me, ainda, lembranças de minha meninice. Aprendi a gostar do sabor da manga desde bem pequena. Era das frutas preferidas da minha infância. Recordo-me de como ficava alegre ao ver Dona Nhachicha chegar em nossa casa, na rua dos Bandeirantes da Cuiabá antiga, com os braços carregados de mangas e  bocaiuvas. E o cheiro da fruta madura espalhava o aviso de sua chegada. Apreciava cascá-las e comê-las com as mãos.  Meu paladar ativava-se ao degustá-las desse modo mais natural. Aliás, até hoje, é assim que prefiro saboreá-las. 

Melhor mesmo era subir em uma mangueira, estender a mão, colher uma manga, descer toda feliz, devorá-la, lambuzar as mãos e a boca e depois  apreciar a sensação de satisfação no estômago. Gostava também de brincar sob a sombra e o frescor de suas copas. São lembranças doces como o sabor de uma boa manga bourbon e que se vivificam na minha memória a cada nova estação desta bendita fruta. 

Talvez por isso, cause estranheza a esta cuiabana, sempre acostumada com a fartura da estação das mangas em Cuiabá, ver as pessoas comprarem essas frutas nos grandes supermercados, muitas vezes vindas de outras regiões, uma vez que são encontradas, abundantemente, em muitas partes desta cidade e em seus arredores.

A manga, conhecida como a rainha das frutas tropicais, é originária da Índia, onde é a fruta nacional. Cultivada em regiões de clima tropical, foi trazida para o Brasil pelos colonizadores portugueses. Dotada de várias propriedades medicinais, bem como as folhas, sendo estas usadas em quase todas as cerimônias religiosas do hinduísmo. As árvores, grandes e frondosas (podem atingir 35 a 40 metros de altura, com um raio de copa próximo de 10 metros), oferecem abrigo a muitos pássaros e propiciam refrescantes sombras aos passantes necessitados de um descanso.

Neste mês de agosto, o espetáculo de gestação das mangueiras torna-se uma prece que alimenta minha alma de esperança de que um mundo novo e melhor possa ser construído, a partir da participação consciente e responsável de todos nós. Cada pessoa que conseguir abrir os olhos e despertar para a vida, transforma-se em sentinela protetora do equilíbrio e da harmonia de Gaia, nossa Mãe Terra.

Nós também podemos crescer, florescer e dar o fruto da Consciência, da Verdade e do Amor à Existência. Nascemos  com esse potencial. É nossa natureza florescer, é nosso destino final dar à luz a essa potencialidade interior, mais cedo ou mais tarde.  A conexão com as mangueiras prenhes dinamiza em mim o sentimento de confiança na Existência e no florescimento do Amor dentro de muitos de nós.

Namastê!

Agosto/2011

ENILDES CORRÊA é Administradora e Terapeuta Corporal Ayurveda. Ministra seminários vivenciais a organizações governamentais e privadas na área de Qualidade de Vida e Humanização da Convivência.  Autora de Vida em Palavras – coletânea de crônicas.  E-mail:  solautoconhecimento@gmail.com


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