quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Avó - mãe com mel

por Enildes Corrêa
"E quando você vai embalar o menino e ele, tonto de sono, abre um olho, lhe reconhece, sorri e diz: ‘’, seu coração estala de felicidade, como pão ao forno". Raquel de Queiroz
"Qualquer experiência que lhe dá o toque da bem-aventurança, silêncio, alegria, lhe abre a porta para a alegria da Existência". Kiran Kanakia
"Os pais são jardineiros para os filhos. Deixe a criança crescer por si mesma, na sua própria expressão. Não dê respostas prontas para as crianças. Deixe a criança conhecer o seu próprio Deus". Kiran Kanakia 
A vida presenteou-me com um casal de filhos e um neto. De acordo com o dito popular, avó é mãe duas vezes ou mãe com açúcar.  Gosto de dizer que avó é mãe com mel.  Eu mesma fui alvo desse carinho feito de mel por parte da minha avó materna – Bárbara –, a ponto de ela, antes de partir, pedir aos meus pais, firmemente, para que me tratassem sempre com muito amor. Essa foi uma das suas últimas recomendações. Hoje, compreendo perfeitamente os seus sentimentos.

Meu neto desperta em mim sentimentos incrivelmente ternos e doces. Quando olho a sua pequena e adorável figura, sinto um jorrar de puro amor sair do meu coração, que se transborda em bênçãos que se estendem a todos os meus. O amor é uma proteção espiritual natural e poderosa que a mãe dá à sua prole. 

O nascimento  dos filhos e netos é determinante na expansão do nosso potencial afetivo. Entretanto, quando os filhos nascem, geralmente, ainda somos bem jovens e imaturos como um fruto verde. Os netos, por sua vez, já nos encontram, quase sempre, mais amadurecidos emocionalmente e prontos para o amor. Então, nós, avós, ofertamos aos netos o vinho do afeto de uma safra mais velha e nobre, sedoso, de qualidade superior,  e que os nossos próprios filhos ajudaram a elaborar.

Ao lado do meu  querido netinho, sinto a vida ser intensificada dentro e ao meu redor. Suas risadas, sua voz, suas conversas, suas perguntas inocentes, seu jeito de olhar e de falar, suas diversas e inesperadas expressões faciais têm o poder de me encantar, momento a momento. Muitas de suas expressões fisionômicas estão fotografadas na minha memória, naquela  parte que o tempo não apaga.

Fico a indagar-me como uma criatura de tão pouca idade pode deixar-me duplamente feliz em sua companhia. Quando ele chega a minha casa, parece um arco-íris que entra pela porta da sala e vai pintando cada cômodo de vida e de graça. Junto do meu “Pingo Dourado”, “Pinguinho de Ouro” ou “Pequeno Buda”, como gosto de chamá-lo, as pequenas coisas têm sabor de paraíso. Contar-lhe histórias infantis, observá-lo brincar com a bola e dar seus incríveis e certeiros chutes, passear no Parque Mãe Bonifácia, caminhar pelo bairro onde moro com a cachorrinha Luma de que ele tanto gosta, ver os passarinhos cruzarem de um lado a outro das ruas e pousarem nas árvores são coisas simples, mas que me dão uma imensa satisfação interna. Uma agradável e abençoada sensação de me sentir inteiramente presente no momento, conectada com a vida, feliz e em paz, sem nada a pedir, sem nada a desejar. Bendigo a Existência e abraço, com infinita gratidão,  a harmonia e o silêncio desses instantes.

Quando brincamos, corremos e gargalhamos juntos, sinto-me tão alegre e jovial que, de repente, procuro a  avó e não a encontro. Vejo apenas um ser humano sem nenhuma identificação com a  idade cronológica, que renasce em cada encontro com essa criança, desde o seu nascimento.

Estou cada vez mais consciente de que a aceitação e acolhida da vida, permite-nos entrar e caminhar na terra encantada do Shangri-lá.  E as pequenas coisas do cotidiano estão cheias de potencialidades de plenitude e celebração. São janelas que descortinam, inesperadamente, o Shangri-lá diante de nós, desde que estejamos relaxados, inteiros  e motivados em cada ato nosso.

Estar presente e total na convivência com o meu neto me tem propiciado conhecer o doce sabor de ser avó. Através do meu amado rebento de segunda geração, Eduardo Augusto, comungo ainda mais com todas as crianças. Torço para que as novas gerações tenham a graça de viver em sintonia e comunhão com a Vida,  de olhos abertos para ver a beleza de cada dia que nasce. Alimento o desejo profundo de que convivam num mundo bem mais equilibrado e amoroso que o atual. Que cumpram a grandiosa e simples missão de revelar a presença do amor e da  harmonia em suas existências.

06/08/2007

ENILDES CORRÊA é Administradora e Terapeuta Corporal Ayurveda. Profa. de Yoga com formação e especialização na Índia. Ministra seminários vivenciais a organizações governamentais e privadas na área de Qualidade de Vida e Humanização da Convivência. Autora do livro Vida em Palavras. E-mail: omsaraas@terra.com.br

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